Trabalhador rural cai de ponte e desaparece no Rio Capibaribe após abertura de barragem; moradores fazem protesto
16/05/2026
(Foto: Reprodução) Barragem de Carpina abre comporta e homem é arrastado pela força da água
Um homem desapareceu após cair no Rio Capibaribe, em Lagoa do Carro, na Zona da Mata Norte de Pernambuco. Ao g1, parentes e um amigo do trabalhador rural Marcelo Francisco Silva, de 50 anos, disseram que ele atravessava uma ponte na fazenda onde trabalhava quando sofreu o acidente.
O caso aconteceu na sexta-feira (15), após a abertura de uma comporta da Barragem de Carpina por causa das chuvas que atingiram o estado no início do mês e fizeram o nível da represa subir (veja vídeo acima). Segundo a família, o governo não avisou com antecedência que a represa ia ser aberta (saiba mais abaixo). Moradores fizeram um protesto neste sábado (16).
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De acordo com a Secretaria de Recursos Hídricos, a comporta foi aberta em 70 centímetros. O órgão também não confirmou o horário de abertura da represa.
Procurado, o governo de Pernambuco informou que cumpriu "integralmente" o Protocolo de Controle de Cheias, comunicando previamente os municípios, um dia antes de abrir a comporta.
Já o secretário de Infraestrutura de Lagoa do Carro, Neo Amorim, disse que não recebeu comunicação oficial do estado e que a informação chegou por um grupo de WhatsApp (veja respostas abaixo).
Um dos amigos que estavam com a vítima, identificado apenas como Dinho, contou que Marcelo estava atravessando a ponte com colegas de trabalho quando escorregou e caiu, por volta das 11h.
De acordo com o trabalhador, a água já estava atingindo a ponte no momento do acidente, que ocorreu na propriedade conhecida como "Fazenda de Dunga". "Foi quando a gente voltou para almoçar. A barragem estava cheia, aí passamos e ele ficou atrás", contou.
À TV Globo, a irmã de Marcelo, Sandra Maria da Silva, disse que ele estava com três colegas.
"Nesse momento de desespero do Marcelo, que viu que os colegas conseguiram passar, ele foi tentar também. E um dos colegas pediu que Marcelo ficasse lá do outro lado, que eles iam tentar pegar Marcelo para conseguir atravessar. Mas, infelizmente, [com] o desespero dele na hora, foi quando ele foi tentar tirar a bota para atravessar, a forte correnteza puxou ele e foi com tudo", disse.
Ainda de acordo com os relatos, outro colega que estava presente pulou para tentar resgatar Marcelo, mas não conseguiu por causa da correnteza. Por saber nadar, ele retornou em segurança.
O Corpo de Bombeiros atua nas buscas da vítima. As operações de resgate na água foram interrompidas por causa da correnteza, sendo realizadas apenas por drones e por monitoramento das margens do rio.
Marcelo Francisco Silva, de 50 anos, morreu após abertura da Barragem de Carpina, na Zona da Mata Norte de Pernambuco
Reprodução/Acervo pessoal/TV Globo
Abertura de barragem
A irmã de Marcelo disse que os funcionários da fazenda não haviam recebido qualquer aviso de que a barragem seria aberta.
"Todo ano acontece de abrir a comporta, mas, dessa vez, não avisaram aos trabalhadores que estavam do outro lado trabalhando, para eles voltarem, para eles poderem sair do outro lado, para não ficar [ilhados]. [...] Desde ontem a gente espera que as autoridades maiores fechem a comporta da barragem para que essa água abaixe, para que o Corpo de Bombeiro consiga achar o corpo", afirmou Sandra.
Marcelo morava com a mãe no Sítio Chão de Santana 2, que fica na cidade de Lagoa do Carro, próximo do local do acidente. Segundo Sandra, Marcelo não sabe nadar e foi arrastado pela correnteza.
"A gente já perdeu a esperança de encontrar ele com vida. Mas quero que ache o corpo para pelo menos enterrar", disse.
Moradores de Lagoa do Carro fizeram, neste sábado (16), um protesto na PE-90, próximo às margens da Barragem de Carpina. Os manifestantes queimaram pneus e interditaram a pista, que foi liberada no fim da manhã.
O que diz o governo
Por meio de nota, o governo de Pernambuco informou que:
o Corpo de Bombeiros enviou equipes de salvamento ao local para fazer o reconhecimento da área e iniciar as buscas da vítima;
em razão do forte volume de água e da intensidade da correnteza, as operações precisaram ser temporariamente suspensas por questões de segurança, mas foram retomadas neste sábado (16);
uma unidade de salvamento faz o monitoramento às margens do rio enquanto outra equipe atua com o emprego de drone para reconhecimento da área e apoio às buscas;
as buscas submersas não são aplicáveis no momento e, diante das condições observadas no local, não houve necessidade de fechamento das comportas;
o Protocolo de Controle de Cheias - Operação Carpina foi integralmente cumprido durante o processo de abertura da comporta, incluindo a comunicação prévia aos municípios e órgãos competentes, à população, por meio de publicações em redes sociais, e à imprensa;
a Defesa Civil, ao tomar conhecimento de que a comporta seria aberta, adotou todas as medidas necessárias para garantir a ampla comunicação e orientação aos municípios localizados às margens do Rio Capibaribe;
foi encaminhado e-mail oficial com ofício aos gestores municipais, alertando sobre a situação e reforçando a necessidade de adoção das medidas preventivas cabíveis junto à população das áreas potencialmente atingidas;
as informações também foram divulgadas no grupo oficial do WhatsApp dos coordenadores municipais de Proteção e Defesa Civil.
O g1 perguntou à gestão estadual por que a comporta não pode voltar a ser fechada para reduzir o volume de água e possibilitar as operações de resgate no Rio Capibaribe. Em resposta, o Corpo de Bombeiros informou que:
a decisão de não fechar a comporta da Barragem de Carpina considera, prioritariamente, a segurança das comunidades ribeirinhas da bacia, que poderiam ser impactadas por alterações no fluxo do rio;
as buscas pelo homem desaparecido seguem em andamento, com atuação de equipes de salvamento, apoio de drones e emprego de aeronave do Grupamento Tático Aéreo (GTA) da Secretaria de Defesa Social (SDS);
em ocorrências dessa natureza, a dinâmica das buscas em ambiente aquático leva em consideração fatores como a força da correnteza, que pode deslocar a vítima por quilômetros do ponto inicial do desaparecimento, ampliando o raio de atuação das equipes;
em casos de possível enrosco em galhos, vegetação ou estruturas submersas, não é possível precisar o tempo de permanência submersa nem a localização exata da vítima.
O que diz a prefeitura de Lagoa do Carro
O secretário de Infraestrutura de Lagoa do Carro, Neo Amorim, disse à TV Globo que, "em momento algum", o município foi comunicado oficialmente pela Defesa Civil do estado sobre a abertura da comporta da Barragem de Carpina.
"Em Lagoa do Carro, ele (o governo) não oficializou. Tem um grupo da Defesa Civil do estado de Pernambuco, em que o responsável colocou essa nota dizendo que iria ter essa abertura das comportas, mas, no grupo do WhatsApp, tem todas as pessoas da Defesa Civil do estado de Pernambuco. Grupo de WhatsApp não é maneira oficial de comunicar o município", afirmou.
Ele afirmou, ainda, que o ofício da Defesa Civil não chegou para os e-mails institucionais da prefeitura.
"Fomos pegos de surpresa pela abertura das comportas. O município tinha ciente de que estava tendo uma melhoria, uma reforma, na barragem, mas, em momento algum, mandaram um ofício sobre a abertura das comportas", declarou.
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