'Sou mulher com DNA masculino': jovem com cromossomo XY viraliza ao narrar descoberta intersexo

  • 24/02/2026
(Foto: Reprodução)
'Sou mulher com DNA masculino': jovem viraliza ao narrar descoberta intersexo Aos 26 anos, Letycia Rosa viralizou nas redes sociais ao contar que é intersexo. A descoberta começou na adolescência, quando exames para investigar a ausência da primeira menstruação mostraram que ela não tinha útero ou ovários. Anos depois, descobriu que uma cirurgia feita para retirar "trompas atrofiadas", na verdade, removeu testículos internos. A moradora de Amparo (SP) nasceu com cromossomo XY, que determina o sexo masculino, mas se desenvolveu e se identifica como mulher. 🟣 O termo intersexo se refere a pessoas que nascem com variações biológicas de sexo que não se encaixam nas definições típicas de “masculino” ou “feminino”. Veja a explicação ao fim da reportagem. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Campinas no WhatsApp Inicialmente, Letycia foi diagnosticada com Síndrome de Morris, mas agora descobriu que pode ter uma condição ainda mais rara, a Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase (veja mais ao final da reportagem). Segundo o endocrinologista Íkaro Soares Santos Breder, que acompanhou o caso: na síndrome, o corpo não consegue usar corretamente a testosterona produzida; na deficiência da enzima, a produção do hormônio é muito baixa, podendo causar pressão alta e falta de cortisol. O vídeo em que relata a própria história passou de 4 milhões de visualizações. Ao g1, a criadora de conteúdo contou detalhes sobre a sua trajetória. Nesta reportagem, você entenderá como ela se descobriu intersexo e o que são as duas síndromes que podem explicar a condição. Confira: Quais sintomas levaram à suspeita Como ela chegou ao diagnóstico Quais as consequências da síndrome Quando o segundo diagnóstico foi levantado Qual a diferença entre as duas síndromes Qual a diferença entre ser intersexo e transexual “Hoje eu digo que a ciência explica o meu corpo, mas não explica a minha alma. Eu sou muito mais e quero dar voz a essas pessoas, porque a gente não vê ninguém falar disso”. A menstruação que não veio e a resposta no ultrassom Letycia Rosa, de 26 anos, é uma mulher intersexo e mora em Amparo (SP) Arquivo Pessoal Letycia conta que, até a adolescência, nunca havia notado nada de diferente no corpo ou na forma como ele funcionava. Aos 15 anos, com a demora da primeira menstruação, a avó decidiu levá-la ao médico. Primeiro, foi encaminhada para um ultrassom e, depois, passou por uma ressonância magnética. Ambos os exames confirmaram: ela nasceu sem útero ou ovários. “Parecia que o médico estava vendo uma assombração na tela. Ele falou: ‘você pode voltar amanhã? Acho que você não está com a bexiga cheia o suficiente’. A gente não entendeu nada, mas eu falei: ‘tá bom, eu volto’. Falei pra minha avó que tinha alguma coisa errada. Cheguei no outro dia e, em vez de um médico, tinham três. Um olhando para a cara do outro e ninguém falava nada”. Do posto de saúde, foi encaminhada ao Hospital da Mulher da Unicamp, o Caism, em Campinas (SP). “Os médicos queriam me examinar o tempo todo e isso deixa a gente intimidada, sabe? Não era nada forçado, mas, poxa, eu ainda brincava de boneca”, lembra. Até aquele momento, ela não havia recebido um diagnóstico formal que explicasse sua condição. “Lembro de uma consulta que eu fui com a minha mãe e a médica disse: ‘posso examinar tudo?’. Eu disse que sim. Ela falou: ‘eu posso ver a profundidade do seu canal vaginal?’. Falei que podia e ela concluiu: ‘Seu canal vaginal é curto. Quando for ter relação, isso pode te atrapalhar’. Ela falou só essa frase, que ficou na minha cabeça para o resto da minha vida”. Luto, depressão e o primeiro diagnóstico Letycia foi responsável por cuidar da avó nos últimos anos de vida Arquivo Pessoal A jovem diz que fez muitos exames até descobrir que precisaria fazer uma cirurgia. A justificativa era que ela só tinha as trompas, que estariam atrofiadas e deveriam ser retiradas. Era 2016. Chegou a ser internada, mas não operou por causa da pressão alta. Em julho daquele ano, veio outro baque: o pai morreu e, em meio ao luto, acabou deixando muitos planos de lado. “Estava estudando para o Enem, ia fazer como treineira e queria prestar direito. Estava estudando bastante, tendo apoio do meu pai. Com a perda dele, eu falei: ‘depois penso nisso’. Em 2017, assumi a responsabilidade de cuidar da minha avó. Mais um ano, não consegui fazer faculdade, porque não queria deixar ela. Eu acabei anulando esse plano da minha vida”. Fez o procedimento em outubro e, em 2017, iniciou uma reposição hormonal indicada pelos médicos. Porém, com as dificuldades financeiras, não conseguiu dar continuidade e precisou interromper. Letycia conta que até começou a trabalhar como jovem aprendiz algum tempo depois, mas que, com o medo de engordar, acabou optando por não tomar hormônios. Nessa época, desenvolveu depressão, ansiedade e transtornos alimentares. Ao longo de 2019, os cuidados com a avó idosa se intensificaram. Ela só enxergou uma nova oportunidade de se cuidar em 2024 e foi em uma consulta no Caism que ela soube que era intersexo. “Descobri que não operei aos 16 para retirar trompas, mas, sim, os testículos”. “Eu estava super bem, fazendo dieta de novo, melhor da depressão e da ansiedade. A médica pegou meu prontuário na consulta e disse: ‘ah, você operou para retirada de testículo, você tem Síndrome de Morris, é uma mulher com cromossomo masculino’ [...] perguntei para ela se eu era homem, e a médica me questionou como eu me considerava, porque era isso que importava”. 🧬 Entenda: cromossomo é uma estrutura que fica dentro das células e carrega o DNA, ou seja, as “instruções” que dizem como o nosso corpo vai se formar e funcionar. Feminilidade à prova e consequências da síndrome Letycia Rosa é uma mulher intersexo: tem DNA masculino, mas se desenvolveu e se identifica como mulher Arquivo Pessoal Desde muito nova, Letycia sonhava em ser mãe. Descobrir que seu sistema reprodutor não seria capaz de gerar um filho a levou a um processo de luto. Mais tarde, ouvir que era uma pessoa intersexo também a fez questionar a própria identidade. A depressão voltou, mas com a ajuda da terapia e da busca por entender sua condição, ela aprendeu a ressignificar suas dores. “Eu me questionava: ‘será que a vida, será que hoje eu me identifico como mulher, porque eu fui criada como uma mulher, mas se eu tivesse sido criada como homem, eu me identificaria como homem?” É um questionamento que veio na minha cabeça e que é muito válido, porque o diagnóstico colocou na mesa a minha essência, o meu feminino”. “Ouvi comentários, tipo: ‘você tem que arrumar um homem que não possa ter filhos ou que não queira’. Primeiro, se um dia eu quiser arrumar alguém, eu não posso querer que essa pessoa não queira ter um filho, porque eu quero. A única coisa que essa pessoa vai ter que entender é que existem outros métodos para isso, mas não que eu tenho que anular o meu sonho pra caber na vida de um homem”. A jovem fez as pazes com o desejo pela maternidade, mas logo precisou encarar outro desafio. No começo de 2025, ficou desempregada, perdeu a avó e foi morar com a mãe. Diante das mudanças, se deparou com novas consequências da síndrome e teve que operar o fêmur. “Passei um mês com dor e os médicos falavam que era emocional, até que chegou no ápice”. Letycia tem 1,87 de altura e calça 44. Ela diz que, além de crescer muito, seus ossos não amadureceram. “As articulações não fecharam e isso facilitou que a cabeça do fêmur escorregasse. Operei dos dois lados. Passei 60 dias de cama, e foi muito difícil emocionalmente para mim. Nesse processo, sem nada para fazer, voltei a pensar sobre a questão de ser intersexo”. Representatividade e novo diagnóstico Enquanto se recuperava da cirurgia no fêmur, Letycia mergulhou em pesquisas. Com a ajuda da informação, finalmente se sentiu segura para reafirmar a própria identidade. “Tive absoluta certeza de que, sim, sou uma mulher, apenas nasci com essa condição. Sou uma mulher com DNA masculino”, pontua. Também encontrou a chance de compartilhar a própria história na internet. Uma das motivações estava, justamente, na dificuldade que enfrentou em encontrar mulheres com a mesma condição. Não se sentia representada, e sua atitude foi certeira. Em um dos vídeos publicados em uma rede social, teve 4,4 milhões de visualizações. Além de curtidas, recebeu dúvidas de seguidores e comentários de pessoas intersexo que só querem se identificar com alguém. “O mais importante para mim, o que eu queria, era atingir mulheres que tivessem a mesma condição. Muitas mulheres começaram a me escrever. Diziam assim: ‘nossa, eu achava que era só eu, eu nunca tive esse assunto bem resolvido e ver você falando me trouxe essa possibilidade’. Agora estou tentando responder as pessoas sobre as dúvidas que elas têm”. Foi por meio dos vídeos que ela soube que, talvez, o diagnóstico seja outro. “Eu entrei em contato com o médico [endocrinologista] que me atendeu na época, mostrei os meus vídeos. Ele falou: ‘ótimos vídeos, mas você não tem Síndrome de Morris.” Aí eu falei: “O que? Como assim?”. Ele me respondeu com um nome que eu nem sei pronunciar. Na prática, eu continuo sendo uma mulher intersexual”. Sua condição intersexo seria resultado da Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase, e não da Síndrome de Morris. Agora, a moradora de Amparo deve voltar a se consultar com o especialista para esclarecer essa dúvida. “Independentemente, na verdade, eu já sei o que isso vai impactar na minha vida”, comenta. “Tenho pressão alta, tenho início de osteoporose, tenho 1,87 metros em uma sociedade que não está preparada para mulheres tão altas, calço 44 e não acho sapato feminino. Esse novo diagnóstico não muda nada na minha vida, pois já lido com as consequências dele. Só vai dar nome aos bois”. Qual a diferença entre as duas síndromes Para entender a diferença entre as duas síndromes, o g1 conversou com o médico Íkaro Soares Santos Breder, que acompanhou o caso de Letycia durante sua residência médica na Unicamp e hoje é especialista na área pela Sociedade de Endocrinologia e Metabologia (SBEM). Entenda a seguir. 🧬 O que é a Síndrome de Morris? A Síndrome de Morris é o nome mais conhecido da síndrome da insensibilidade androgênica completa. Nela, a pessoa tem cariótipo XY, que é associado ao sexo masculino, possui testículos, que produzem testosterona, mas o corpo não consegue “ler” a testosterona. O médico compara o funcionamento dos hormônios a um sistema de “chave e fechadura”. Isto é, o hormônio é a chave e o receptor no órgão é a fechadura. Na Síndrome de Morris, a “fechadura” não funciona. A testosterona até é produzida, muitas vezes em quantidade elevada, mas não consegue agir no organismo. As consequências são: não há desenvolvimento do pênis nem do saco escrotal; os testículos não descem e podem ficar na região da virilha; não há crescimento de pelos nem engrossamento da voz; a pessoa cresce com aparência feminina. 🧬 O que é a Deficiência da Enzima 17-alfa-hidroxilase? É uma forma de hiperplasia adrenal congênita. O organismo tem uma mutação que impede ou reduz muito a ação da enzima, que é essencial para a produção de alguns hormônios. Há produção muito baixa ou quase inexistente de testosterona, o desenvolvimento masculino não acontece e não há excesso de testosterona sendo convertida em hormônio feminino. As consequências são: a pessoa pode ter cariótipo XY; não desenvolve pênis nem bolsa escrotal; a genitália externa pode se parecer com a feminina; não há desenvolvimento das mamas (porque não há hormônio feminino em excesso). não há útero. Além disso, a condição pode causar problemas que não aparecem na Síndrome de Morris, como: pressão arterial muito alta, inclusive em crianças, com risco aumentado de AVC e infarto; necessidade de medicação para controlar a pressão; falta de cortisol (o “hormônio do estresse”), exigindo reposição com corticoide. alterações metabólicas, como ganho de peso e resistência à insulina. Em ambas as condições, pode haver impacto na saúde óssea, porque os hormônios sexuais (masculinos e femininos) ajudam a proteger os ossos, e há impacto emocional em decorrência do diagnóstico. Além disso, o tratamento consiste na reposição hormonal correspondente à identidade com a qual a pessoa se identifica, e uso de medicamentos para regular outros efeitos da condição, como a pressão alta e a baixa no potássio. Intersexo x transexual Letycia conta que, quando começou a falar sobre ser intersexo, ouviu que seria uma pessoa trans. Embora a intersexualidade faça parte da sigla LGBTQIAP+, por ser considerada uma forma de diversidade sexual, não há relação entre os dois grupos. Entenda: Intersexo: pessoas intersexo nascem com características biológicas (genitais, cromossomos ou hormônios) que não se encaixam totalmente nas definições típicas de “masculino” ou “feminino”. Está ligado ao corpo. Transexual: pessoas transexuais têm um gênero com o qual se identificam diferente do registrado ao nascer. Por exemplo, alguém que nasceu com corpo de homem, mas se identifica e vive como mulher. Tem a ver com a identidade. ⚠️ Vale destacar também que não é correto chamar pessoas intersexo de hermafroditas, pois esse termo é considerado ofensivo e impreciso. Ele vem da biologia e se refere a animais ou plantas com ambos os órgãos sexuais, masculinos e femininos, funcionais, e não é capaz de descrever corretamente a diversidade biológica humana. LEIA TAMBÉM: Influenciadora Karen Bachini revela ser intersexo; entenda o termo QIAPN+: entenda as novas letras da sigla LGBT VÍDEOS: Tudo sobre Campinas e Região Veja mais notícias sobre a região na página do g1 Campinas.

FONTE: https://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2026/02/24/sou-mulher-com-dna-masculino-jovem-com-cromossomo-xy-viraliza-ao-narrar-descoberta-intersexo.ghtml


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