O dilema de Milei: como manter suas negociações com a China sem desagradar a Trump?

  • 07/02/2026
(Foto: Reprodução)
Argentina x China: Javier Milei mudou drasticamente de discurso sobre o gigante asiático O presidente americano, Donald Trump, não deixa de criticar aliados dos Estados Unidos pela reaproximação com a China. Para Javier Milei, seu principal parceiro ideológico na América Latina, a situação é delicada, diante dos laços comerciais estratégicos da Argentina com Pequim. Esse dilema voltou a ficar evidente quando Milei declarou, no início de janeiro, que pretende viajar à China ainda este ano, em um momento em que Trump pressiona para reforçar a influência dos EUA nas Américas. Durante a campanha que o levou à presidência, em 2023, Milei prometeu que não faria “negócios com a China” nem “com nenhum comunista”. Após a eleição, no entanto, passou a adotar uma postura mais pragmática. 🔎 A China é o segundo maior parceiro comercial da Argentina, depois do Brasil, e investe milhões em energia, lítio e infraestrutura no país. 📈 O comércio com Pequim está em ascensão e representou 23,7% das importações argentinas e 11,3% das exportações no ano passado, segundo o Instituto Nacional de Estatística e Censos (Indec). Trump recebe Milei pela primeira vez na Casa Branca Jonathan Ernst/Reuters Essa mudança se consolidou com a renovação, em 2024 e 2025, da parte ativa do acordo de swap cambial com a China, no valor equivalente a US$ 5 bilhões (R$ 26 bilhões). O swap é uma troca temporária de moedas entre países, usada para reforçar as reservas internacionais, um dos objetivos fundamentais do governo de Milei. A parceria é tamanha que Milei tem reiterado os planos de visitar a China. Até agora, nem a Presidência da Argentina nem a embaixada chinesa em Buenos Aires responderam aos questionamentos da AFP sobre a viagem. Acontece que, ao mesmo tempo, o autoproclamado anarcocapitalista mantém um alinhamento firme com os Estados Unidos sob a administração Trump, que busca reduzir a presença da China na região. “Esse alinhamento total com os Estados Unidos e Israel, que é uma posição praticamente única no mundo, entra em conflito com a tentativa de estreitar relações com a China”, disse à AFP Patricio Giusto, diretor do Observatório Sino-Argentino. Doutrina Donroe Os Estados Unidos pretendem reafirmar sua hegemonia regional por meio de uma releitura da Doutrina Monroe, defendida por Trump e apelidada de “Doutrina Donroe”, segundo a qual Washington pode intervir na América Latina se considerar que seus interesses estão ameaçados. “A Argentina é um país-chave no hemisfério, e não apenas no continente, nessa busca por legitimidade de liderança que Donald Trump está conduzindo”, disse à AFP Florencia Rubiolo, diretora do Insight 21, centro de análises da Universidade Siglo 21. Nas últimas semanas, Milei elogiou ações militares dos Estados Unidos na Venezuela que levaram à captura de Nicolás Maduro e disse estar honrado em assinar o Conselho da Paz idealizado por Trump. Em outubro, Milei recebeu uma linha de ajuda financeira de 20 bilhões de dólares (107,6 bilhões de reais, na cotação da época) de Washington, um forte endosso em meio a uma crise política e cambial antes das eleições legislativas, que seu partido venceu. Em outubro, Milei recebeu uma linha de ajuda financeira de US$ 20 bilhões (R$ 107,6 bilhões, na cotação da época) de Washington, um forte apoio em meio a uma crise política e cambial antes das eleições legislativas, vencidas por seu partido. "Não queremos outro Estado falido ou liderado pela China na América Latina", disse o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, na época. Milei dança Y.M.C.A em evento nos EUA Governo da Argentina Durante o mandato de Milei, dois comandantes do Comando Sul dos Estados Unidos visitaram uma base argentina em construção em Ushuaia, a cidade mais ao sul do país. Na semana passada, parlamentares americanos também visitaram Ushuaia, em um momento em que a China amplia sua presença no Polo Sul. Eles também visitaram o campo de xisto de Vaca Muerta, em Neuquén, a segunda maior reserva mundial de gás não convencional e a quarta maior de petróleo de xisto, acompanhados por representantes da petroleira estatal YPF. “Milei tenta separar a relação econômica, especialmente os laços comerciais com a China, de seu alinhamento geopolítico com os EUA. O dilema é saber se essa separação pode se sustentar ao longo do tempo, principalmente se Trump passar a impor condições também ao comércio”, disse Giusto. "Impraticável" Milei afirmou em Davos, em janeiro, que “a China é uma grande parceira comercial”, que oferece “muitas oportunidades para expandir mercados”, e que isso “não entra em conflito” com seu alinhamento com os Estados Unidos. “Governo para 47,5 milhões de argentinos e tomo as decisões que melhor beneficiam os argentinos”, disse ele na ocasião. “Quero uma economia aberta”, enfatizou. Para Giusto, a relação com a China avança por causa da “forte complementaridade econômica” entre os dois países. Segundo o Indec, 70% das exportações argentinas para a China em 2025 foram de soja, carne bovina e lítio. A abertura econômica do governo Milei facilitou a entrada de produtos de consumo chineses. Em 2025, as importações “door to door” (porta a porta), lideradas por Temu e Shein, cresceram 274,2%, segundo dados oficiais. Outro exemplo foi a chegada, em janeiro, de cerca de 5 mil carros elétricos da marca chinesa BYD. “Para a Argentina, romper laços com a China é absolutamente impraticável, porque a China é uma parceira insubstituível”, observou Rubiolo. Javier Milei, presidente da Argentina, e Xi Jinping, presidente da China AFP PHOTO / ARGENTINIAN PRESIDENCY

FONTE: https://g1.globo.com/economia/noticia/2026/02/07/o-dilema-de-milei-como-manter-suas-negociacoes-com-a-china-sem-desagradar-a-trump.ghtml


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