Justiça quebra sigilo de documentos da morte de Tancredo Neves; entenda o que pode vir à tona
01/11/2026
(Foto: Reprodução) Justiça determina quebra do sigilo médico sobre morte de Tancredo Neves
Há pouco mais de 40 anos, o Brasil festejava um momento histórico: a eleição e a futura posse do primeiro presidente civil, após duas décadas do regime militar.
A internação na véspera da posse – e a morte inesperada do presidente eleito Tancredo Neves em 21 de abril de 1985 – mudou novamente os rumos da política nacional. E, ainda hoje, é cercada de mistérios e até teorias da conspiração.
Uma decisão dada pela Justiça Federal nesta semana pode começar a solucionar essas dúvidas. O Tribunal Regional Federal da 1ª Região foi unânime ao aprovar que a família de Tancredo tenha acesso a documentos sigilosos sobre a internação no Hospital de Base, em Brasília.
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O objetivo é sanar a dúvida da família --- e de inúmeros eleitores da época --- sobre a suspeita de erro médico.
Tancredo Neves foi internado na véspera da posse presidencial com quadro de diverticulite – inflamação na região do intestino grosso. Ele morreu um mês depois, em 21 de abril de 1985.
Com a nova decisão, o Conselho Federal de Medicina (CFM) e o Conselho Regional de Medicina do Distrito Federal (CRM-DF), devem liberar prontuários, relação de médicos e outros documentos.
Procuradas pelo g1, as entidades afirmaram que ainda não foram oficialmente notificadas.
Caminho na Justiça
Apesar de a decisão ter chegado apenas em 2026, a busca por explicações começou em 2010, com a publicação do livro "O paciente", de Luís Mir. Com autorização da família, o escritor pesquisou a fundo o período e encontrou falhas nos procedimentos.
A advogada Juliana Porcaro explica que a família pediu aos conselhos que liberassem os documentos, mas a demanda foi negada com base no sigilo da relação médico-paciente. Por isso, o caso foi parar na Justiça.
As hipóteses de erro médico levantadas pelo autor e pelos familiares se sustentam em quatro fatores.
Cirurgia imediata: especialistas ouvidos pelo escritor questionam a decisão de uma cirurgia de emergência. Isso porque os procedimentos contra diverticulite costumam ser eletivos, ou seja, passíveis de agendamento enquanto o paciente segue com outros tratamentos.
Técnicas questionáveis: Mais de 30 acompanhantes estiveram na sala de cirurgia durante o procedimento, o que é proibido por razões de segurança.
Advertência: Médicos envolvidos no tratamento receberam advertência do CRM-DF. O motivo da notificação, no entanto, segue como um mistério.
Falhas na recuperação: O autor acredita que falhas no protocolo de recuperação podem ter contribuído para complicações.
Uma das fotos mais emblemáticas da época é a foto de Tancredo Neves sentado ao lado dos médicos (veja abaixo). Por conta da região da cirurgia, no entanto, ele não poderia ter sido colocado naquela posição.
Foto clássica mostra presidente eleito Tancredo Neves rodeado por médicos, dias antes de sua morte em 1985
Gervásio Baptista/Reprodução
Após hemorragia e outras complicações, Tancredo foi transferido do Instituto do Coração (Incor) já em estado grave.
"Quando ele veio a óbito, os médicos não tiveram coragem de declarar o óbito, eles chamaram o médico americano [Warren Zapol], que veio ao Brasil e avaliou", conta Juliana.
Tancredo Neves durante discurso, em foto de julho de 1984
Antonio Lúcio/Estadão Conteúdo/Arquivo
Novos rumos na história
Para a advogada e porta-voz da família, a divulgação dos dados não é apenas de interesse das pessoas próximas, mas ajuda a contar a "história de uma nação".
"Se há uma advertência, é porque houve um processo administrativo no conselho e algo foi considerado errado. E é a esse 'algo' que a família quer ter acesso. Quer entender como os próprios médicos do Conselho entenderam a postura dos médicos responsáveis pelo presidente Tancredo Neves", afirma.
Juliana conta que esteve com o ex-presidente José Sarney, que confirma a percepção de que houve negligência por parte da equipe de saúde.
"Ele confirmou que teve esse receio de assumir a presidência, porque foi muito delicado. Ninguém sabia se isso ia ser bem aceito", comenta.
Com a posse de Sarney, vice na chapa de Tancredo, o Brasil iniciou um novo momento na política com a eleição de civis.
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