Caso Henry Borel: entenda o que já aconteceu no julgamento de Jairinho e Monique
31/05/2026
(Foto: Reprodução) Caso Henry Borel: testemunhas relatam episódios de violência envolvendo Jairinho durante julgamento
O Tribunal do Júri que julga o ex-vereador Jairo Souza Santos Júnior, o Jairinho, e Monique Medeiros pela morte de Henry Borel, de 4 anos, completou cinco dias de depoimentos no Fórum Central do Rio de Janeiro na última sexta-feira (29).
Desde o início da sessão, testemunhas de acusação, peritos, policiais, profissionais de saúde, ex-companheiras de Jairinho e pessoas que conviveram com o casal apresentaram versões e informações que ajudam a reconstruir os últimos meses de vida da criança.
📱Baixe o app do g1 para ver notícias do RJ em tempo real e de graça
O g1 reúne nesta reportagem os principais pontos já apresentados ao Conselho de Sentença e explica o que foi dito pelas testemunhas mais importantes ouvidas até agora.
Dr. Jairinho e Monique Medeiros, em fotos feitas no ingresso do casal no sistema penitenciário
Reprodução
Até o momento, 14 testemunhas foram ouvidas pelo júri. Outras ainda devem prestar depoimento nos próximos dias.
No Tribunal do Júri, sete jurados são responsáveis por decidir se os réus devem ser condenados ou absolvidos. A acusação sustenta que Jairinho agrediu e provocou a morte de Henry e que Monique tinha conhecimento das agressões e se omitiu. As defesas negam os crimes e apresentam versões diferentes sobre o que aconteceu.
Leniel diz que recebeu sinais de Henry e faz acusações
Um dos depoimentos mais aguardados aconteceu na última sexta-feira (29). O relato do pai de Henry, Leniel Borel, foi marcado pela emoção. Ele afirmou aos jurados que recebeu sinais de que algo estava errado na convivência entre Henry e Jairinho semanas antes da morte da criança. Segundo ele, o primeiro alerta surgiu quando o filho relatou que um "tio" lhe dava "abraços fortes".
Ao relembrar a madrugada de 8 de março de 2021, o pai de Henry chorou ao descrever o estado em que encontrou o menino no Hospital Barra D'Or.
"Eu vejo meu filho cheio de marcas, deitado na maca, rígido. Eu o entreguei bem de saúde horas antes. Aquela criança já não era meu filho", comentou.
Leniel também afirmou que estranhou a versão apresentada por Jairinho sobre o socorro prestado à criança e disse que aquele foi o momento em que passou a desconfiar da narrativa apresentada pelo casal.
"Isso já me chamou atenção. Ligou o alerta na hora."
Na parte mais contundente do depoimento, o pai de Henry afirmou acreditar que Monique tinha conhecimento dos sinais de violência sofridos pelo filho e atribuiu a aproximação de Jairinho ao interesse pela criança.
"Todos os sinais demonstram que a Monique sabia."
"Com tudo que a gente tem na mão hoje, o Jairinho só foi morar com a Monique por causa do Henry. (...) Ele foi morar com a Monique por causa do Henry. Porque ele tinha prazer em agredir crianças."
Leniel disse que questionou Monique sobre a causa da morte apontada no laudo do Instituto Médico Legal. Segundo ele, a mãe de Henry ficou calada.
Leniel afirmou que Monique escreveu em uma mensagem:
“Ele está nos braços do pai. Se eu pequei alguma vez foi por excesso nunca por falta. Minha consciência está tranquila"
Fabiano Lopes, advogado do ex-vereador, disse que Leniel seria processado por calúnia e o confrontou sobre acusações de manipular o caso para incriminar Jairinho.
A defesa de Monique, por sua vez, questionou se Leniel tinha capacidade profissional para chamar Monique de narcisista, e o questionou se ele tinha levado uma mulher para sua casa três dias após o enterro do filho.
Laudos periciais e causa da morte
Outros depoimentos importantes do ponto de vista técnico ocorreram com profissionais responsáveis pela análise médica do caso.
O perito do Ministério Público Luiz Carlos Leal Prestes descartou que as lesões tenham sido provocadas por manobras de ressuscitação realizadas no Hospital Barra D'Or e afirmou que a morte foi consequência de agressões. O relato dele vai de encontro com a linha de defesa dos advogados de Jairinho.
"Houve um homicídio por espancamento, esse menor chegou sem vida a esse hospital. A multiplicidade de lesões em sítios diferentes fez com que, inequivocamente, se concluísse que essa criança foi agredida e por isso houve a hemorragia interna", disse o perito.
Segundo ele, a tese de acidente doméstico não encontra respaldo nas evidências periciais.
"O acidente doméstico está completamente descartado. Isso é uma versão fantasiosa", afirmou.
Gilmar Mendes, do STF, libera exibição do Linha Direta sobre o caso Henry Borel
Jornal Nacional/ Reprodução
Ao descrever o estado da criança, o perito disse que Henry sofreu antes de morrer.
"Essa criança sofreu durante algum tempo até sucumbir. Essa morte foi lenta, essa morte foi agônica, progressiva. Imagina uma criança de 4 anos. Qualquer arranhão a criança reclama."
O médico-legista Luiz Airton Saavedra de Paiva também é considerado uma das principais testemunhas técnicas da acusação. Em pareceres apresentados ao processo, ele concluiu que as lesões encontradas no corpo da criança são incompatíveis com acidente doméstico e com manobras de reanimação.
A pediatra Maria Cristina de Souza Azevedo, que participou do atendimento de Henry no Hospital Barra D'Or, reforçou essa linha ao afirmar que os procedimentos realizados pela equipe médica não poderiam explicar os ferimentos identificados posteriormente.
"As lesões que o Henry tinha não poderiam ter sido provocadas pelos procedimentos [de reanimação]", disse ela.
A médica afirmou que a criança chegou à unidade já em parada cardiorrespiratória, com pupilas dilatadas e sem reação à luz. Segundo ela, a imagem registrada pelas câmeras do elevador do prédio era compatível com o estado em que o menino deu entrada no hospital.
Henry com a mãe e Jairinho no elevador depois de voltar da casa do pai
Reprodução
A médica explicou que a equipe iniciou imediatamente os protocolos de ressuscitação, com massagem cardíaca, ventilação, medicação venosa e intubação. As tentativas duraram cerca de 50 minutos e só foram prolongadas porque Henry era uma criança e, segundo ela, pacientes pediátricos costumam apresentar mais chances de recuperação do que adultos.
Maria Cristina contou que os procedimentos continuaram por aproximadamente mais 50 minutos após um pedido feito por Leniel Borel, pai de Henry.
"Quando a gente ia parar, o pai chega para a gente e pede para a gente não desistir do filho dele."
Revelações das testemunhas
Além da discussão técnica sobre a causa da morte, o júri ouviu depoimentos que procuraram reconstruir a dinâmica familiar envolvendo Henry, Monique e Jairinho.
O delegado Edson Henrique Damasceno, responsável pela investigação, afirmou que a polícia concluiu que a versão inicialmente apresentada pelos réus era falsa.
"No decorrer da investigação, a gente mostrou que tudo era uma farsa ensaiada, que as versões apresentadas eram mentirosas e que as lesões que o menino sofreu eram incompatíveis com qualquer queda de cama. As lesões são gravíssimas", afirmou o delegado.
Damasceno também destacou a importância da perícia para o esclarecimento do caso.
"Se o corpo não tivesse ido para o IML, a mentira iria seguir. Se não tivessem os prints mostrando as agressões, a mentira iria seguir", disse ele.
Sobre Monique, o delegado afirmou que ela tinha conhecimento de episódios anteriores de agressão.
"Ela sabia disso e, mesmo assim, quando o menino morreu por ação contundente, com somente ela, o menino e o Jairo em casa, foi à delegacia dizer que o Jairinho tinha um relacionamento maravilhoso com ele", analisou o delegado.
Monique Medeiros deixa a prisão no Instituto Penal Santo Expedito, em Bangu, em 2022
Fernando Frazão/Agência Brasil/Arquivo
Outro depoimento marcante foi o do psiquiatra Rafael Bernardon Ribeiro.
Ao analisar documentos do processo e a dinâmica familiar, ele afirmou ter identificado um padrão de comportamento atribuído a Jairinho.
"Eu percebi que há um padrão repetitivo de abuso infantil por parte do réu [Jairinho], um padrão de prazer em infligir dor em crianças."
O especialista também traçou um perfil de Monique.
"Subordina sistematicamente o bem-estar de seu filho aos seus próprios interesses narcísicos e ambições materiais."
Segundo ele, a mãe de Henry era uma pessoa "autocentrada, ambiciosa, vaidosa, e, ao longo da relação com o Henry, priorizava os seus interesses ao invés dos interesses de proteção da criança".
O irmão de Monique, Bryan Medeiros, irmão de Monique, negou que ela fosse narcisista e interesseira, alegando que ela não gostava de depender financeiramente de parceiro algum. "Ela nunca foi de ficar sentada e esperar vida boa. Isso é completamente falso".
Histórico de violência
A acusação também apresentou testemunhas que relataram episódios anteriores envolvendo Jairinho e outras crianças.
Jairinho durante o depoimento no caso Henry
Divulgação/Brunno Dantas e Felipe Cavalcanti/TJRJ
Kaylane de Oliveira Duarte Pereira, hoje com 18 anos, afirmou ter sofrido agressões quando era criança e filha de uma ex-companheira do ex-vereador. Ela relatou um episódio ocorrido em uma piscina.
"...na piscina ele ficava me afundando, até eu bater no chão da piscina."
Ao falar sobre a morte de Henry, a jovem afirmou que passou a se sentir culpada.
"Eu me senti muito culpada. Se eu tivesse falado, talvez não chegasse ao que chegou"
Kaylane também afirmou que Jairinho reclamava da presença dela na vida da mãe.
"Ele dizia que, se eu não existisse, ia ser muito melhor. Que eu atrapalhava ela, que se fosse só ele e a minha mãe a vida dela ia ser muito melhor."
Caso Henry Borel: julgamento é transferido para maio após manobra dos advogados de Jairinho, padrasto da criança
Jornal Nacional/ Reprodução
A mãe da jovem, Natasha Machado, confirmou os relatos da filha e afirmou que não denunciou os fatos por medo da influência política da família de Jairinho.
Outra testemunha relevante no processo foi Débora Mello Saraiva, ex-companheira do réu. Ela afirmou que o filho revelou episódios de violência após assistir reportagens sobre o caso Henry.
"Ele veio pra mim e falou: 'Mamãe, você sabe o que o Jairinho fez comigo?'. Ele disse que Jairinho tinha pisado na barriguinha dele e ficou rindo", contou a mãe.
Débora também relatou ao júri um episódio de violência sexual que, segundo ela, ocorreu durante o relacionamento com Jairinho. A testemunha afirmou que o caso aconteceu no mesmo dia em que o filho teria sofrido agressões atribuídas ao ex-vereador.
Segundo Débora, ela estava dopada e só compreendeu o que havia acontecido após acordar. A testemunha afirmou ainda que o filho contou ter tentado acordá-la naquele momento, sem sucesso.
"Eu estava dopada e ele me dopou nesse dia. Foi o mesmo dia que ele me estuprou", relembrou ela.
Ao descrever o episódio, Débora afirmou que Jairinho teria posteriormente admitido o ocorrido e feito comentários que ela classificou como humilhantes e ofensivos.
"Ele riu, admitiu, e disse que eu gritei igual uma cachorra e me mijei todinha (...) Eu tenho medo e raiva pelo que ele fez comigo e pelo meu filho."
Bryan Medeiros, irmão de Monique, alegou que cartas escritas por sua irmã revelaram agressões de Jairinho contra Monique durante a relação.
Ele citou que os casos relatados por Débora e Natasha, ex-namoradas de Jairinho, corroboram essa narrativa, assim como mensagens do celular de Thayná Ferreira, babá de Henry Borel:
"Hoje eu tenho elementos para caracterizar que o modus operandi dele (Jairinho) é semelhante a esse. Ela é categórica em dizer que havia essas agressões"
O irmão de Monique diz acreditar que Jairinho matou Henry Borel.
"Só pode ter sido ele", afirmou.
Monique teria sido obrigada a mentir, diz irmão
O irmão de Monique Medeiros afirmou em depoimento que o advogado André França, logo após o crime, obrigou Monique a mentir no primeiro depoimento na 16ª DP (Barra da Tijuca). Na época, França defendia Jairinho e a própria Monique, que ainda eram um casal.
"A Monique foi treinada para mentir no primeiro depoimento, e a gente não tinha ideia que seria extremamente prejudicial. Ele não defendeu a Monique, porque ele modificou a narrativa dos fatos após a morte do Henry", pontuou Bryan Medeiros.
Em seguida, Bryan deu exemplos do que seria a narrativa inventada. Ele afirmou que ouviu do advogado que Monique foi colocada na história como a pessoa que acordou na madrugada que a criança morreu:
"Falar que o Jairo acordou seria extremamente prejudicial. Então, ele coloca a monique na posição de ter acordado primeiro e que não haveria suspeitas. 'A gente vai falar que ela estava sentada recostada na cama'. Nossa missão era disseminar essa narrativa"
Mudança de versão e contradições
Duas testemunhas ouvidas pelo júri ajudaram a reconstruir um episódio apontado pela acusação como uma agressão anterior contra Henry.
A empregada doméstica Leila Rosângela de Souza Mattos, que trabalho na casa de Jairinho e Monique, na Barra da Tijuca durante o ano de 2021, afirmou que viu a criança sair assustada de um quarto após permanecer alguns minutos sozinha com Jairinho.
"Ele saiu do quarto com cara de apavorado.", disse ela no júri.
Dr. Jairinho durante o seu depoimento
Divulgação/Brunno Dantas e Felipe Cavalcanti/TJRJ
O depoimento de Leila Rosângela mudou ao longo das investigações. Em sua primeira oitiva à polícia, realizada poucos dias após a morte de Henry, a empregada doméstica afirmou nunca ter presenciado qualquer situação que indicasse agressões contra a criança e descreveu a convivência entre Jairinho, Monique e o menino como normal.
Posteriormente, porém, ao ser novamente ouvida, ela passou a relatar um episódio ocorrido em fevereiro de 2021 em que viu Henry sair de um quarto "com cara de apavorado" após permanecer alguns minutos sozinho com Jairinho, o que ela voltou a dizer diante do Juri.
Rosângela também afirmou ter visto o menino mancando e reclamando de dores, informações que não haviam sido mencionadas em seu primeiro depoimento.
Já a cabeleireira Tereza Cristina dos Santos afirmou que presenciou uma chamada de vídeo entre Monique e Henry em 12 fevereiro de 2021, durante um atendimento no salão que ela trabalhava.
Segundo a testemunha, a ligação foi feita pela babá Thayná, que queria informar a Monique que Henry estava mancando e com o joelho machucado. A cabeleireira disse que chegou a ver a imagem do menino durante a videochamada e ouviu a conversa entre mãe e filho.
Segundo a testemunha, Henry perguntou à mãe se a atrapalhava e afirmou que o "tio" havia dito que ele era um problema. Em seguida, relatou que havia sido agredido.
"O tio me deu uma banda", teria dito o menino, segundo a cabeleireira.
Tereza afirmou ainda que, apesar da ligação e das informações repassadas pela babá, Monique só pediu para acelerar o atendimento quando a escova já estava na fase final.
"Só quando eu estava na parte da franja é que ela pediu para acelerar. Antes disso, tudo normal", declarou.
O depoimento foi reforçado pela manicure Paloma dos Santos Meireles, que confirmou o relato sobre o comportamento da mãe de Henry durante o atendimento no salão.
Conflito entre os réus
Embora tenham iniciado o processo com uma estratégia conjunta, Jairinho e Monique passaram a adotar linhas de defesa completamente diferentes ao longo da ação penal.
Nos primeiros meses da investigação, ambos eram representados pelo mesmo grupo de advogados e sustentavam que a morte havia sido causada por um acidente doméstico.
Após as prisões, as defesas foram separadas.
Monique Medeiros da Costa Almeida e Dr. Jairinho deixam a delegacia após 12 horas de depoimento sobre a morte do menino Henry Borel
Reprodução/TV Globo
A defesa de Jairinho passou a concentrar esforços na contestação dos laudos periciais e na tentativa de anular provas produzidas durante a investigação.
Já a defesa de Monique passou a sustentar que ela vivia uma relação abusiva e era manipulada psicologicamente pelo então companheiro.
O conflito ficou explícito durante o júri, quando a Justiça autorizou que Jairinho fosse interrogado apenas depois de Monique. Os advogados do ex-vereador argumentaram que a corré pretende atribuir exclusivamente a ele a responsabilidade pela morte de Henry.
O julgamento também foi marcado por sucessivas tentativas de adiamento apresentadas pela defesa de Jairinho. A mais recente ocorreu logo na abertura do júri, quando os advogados alegaram problemas de saúde de um integrante da banca. O pedido acabou não prosperando e a sessão foi mantida.
Com mais testemunhas previstas para os próximos dias, o Tribunal do Júri ainda deve se estender por alguns dias antes dos interrogatórios dos réus, dos debates entre acusação e defesa e da decisão final dos jurados.